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Ataques contra jornalistas e meios de comunicação crescem 26,9% em 2022

*Foto de capa: Antonio Cruz/Agência Brasil

Como forma de acompanhar a situação da liberdade de imprensa no Brasil, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) tem monitorado os ataques sofridos por jornalistas e meios de comunicação do país. Entre jan.2022 e abr.2022, foram identificados 151 episódios de agressão física e verbal ou outras formas de cercear o trabalho jornalístico, como restrições de acesso à informação, ataques de negação de serviço na internet, doxing (exposição de dados pessoais), processos civis ou penais, assassinato, assédio sexual e uso abusivo do poder estatal. Esse cenário sofreu uma piora em relação a 2021: houve um aumento de 26,9% considerando o mesmo período do ano passado.

Em 2022, o tipo de agressão mais comum continua sendo o discurso estigmatizante – assim como foi em 2019, 2020 e 2021 –, presente em 66,9% dos alertas identificados até abril. Foi registrado um aumento de 12 casos dessa forma de violência verbal em comparação com o mesmo período do ano passado. A categoria de “agressões e ataques”, que envolve violência física, atentados e ameaças explícitas, também aumentou, apresentando um salto de 80%. 

Além disso, diferentemente de 2021, em 2022, registrou-se um assassinato e dois casos de violência sexual, classificados de acordo com o novo indicador estabelecido pela rede latino-americana Voces del Sur, que passou a incluir a perspectiva de gênero em sua metodologia, registrando situações de assédio, ameaças, atos ou comentários indesejados de natureza sexual em uma categoria própria. Esses resultados definem, até o momento, 2022 como um ano mais violento para o jornalismo brasileiro do que o anterior.

Os dados do projeto também apontam para uma participação intensa de agentes públicos nos ataques. Entre o total de casos registrados, 70,2% contaram com o envolvimento de atores relacionados ao Estado e 57,6% tiveram a participação de figuras que cumprem mandatos em cargos eletivos. Esses números revelam um contexto sombrio no qual representantes dos poderes constituídos atacam um pilar essencial para a própria democracia, que é a imprensa livre.

Dos 106 ataques perpetrados por atores estatais, 70 (66%) envolveram um ou mais membros da família Bolsonaro, que compreende o presidente da República e seus filhos com mandatos eletivos. Jair Bolsonaro (PL) foi agressor em 32 casos, seguido pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), com 23 ataques. Depois, há o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), com 12 casos, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 8. Na maioria dos casos, os principais alvos foram a imprensa brasileira de modo geral (77,1%); meios de comunicação (31,4%) como O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, O Antagonista e Metrópoles; além de vitimarem repórteres e comunicadores (25,7%); e editores ou diretores de empresas de mídia (1,4%).

Outro destaque do monitoramento se relaciona com o papel das plataformas digitais nos ataques a jornalistas e meios de comunicação. O ambiente on-line se mostrou um terreno hostil para comunicadores brasileiros, considerando que 62,9% das agressões registradas até abril tiveram origem ou repercussão na internet. A Abraji já mostrou como o ambiente digital é usado, principalmente por atores políticos, para atacar profissionais da imprensa, em especial mulheres, pessoas LGBTQIA+ e meios de comunicação comprometidos com pautas feministas.

Violência de gênero

Paralelamente ao acompanhamento de ataques contra a imprensa brasileira, a Abraji monitora episódios de violência de gênero contra jornalistas no país. O projeto registra agressões, ofensas, ameaças, intimidações e outras formas de ataque que envolvem identidade de gênero, sexualidade, orientação sexual, aparência e estereótipos sexistas contra comunicadores como um todo, bem como casos de agressão contra mulheres jornalistas – cis ou trans – de forma geral.

De jan.2022 a abr.2022, 29 ataques atingiram jornalistas mulheres no Brasil. Foram 7 casos de violência explícita de gênero contra 8 comunicadoras e 1 comunicador, alvo de ataques homofóbicos.

Os dados de 2021 estão disponíveis em um relatório publicado em portuguêsinglês e espanhol. A plataforma on-line do projeto está em constante atualização e já oferece os resultados parciais de 2022.

Sobre o monitoramento

A Abraji monitora os ataques contra a imprensa brasileira desde 2013. Esse projeto se expandiu em 2019, quando a associação passou a integrar a rede Voces Del Sur (VDS),  que hoje reúne 14 organizações da sociedade civil em diferentes países da América Latina e Caribe, movidas por um esforço comum de monitorar a situação da liberdade de imprensa na região. Com isso, o monitoramento se tornou sistemático, e a metodologia passou a ser compartilhada. Em abr.2022, a Abraji lançou o relatório “Monitoramento de ataques à imprensa no Brasil”, com dados e análises gerais sobre os episódios registrados no último ano.

O monitoramento é um trabalho diário, com novos episódios sendo frequentemente registrados pela Abraji. Esses dados podem ser atualizados se outros casos ainda não identificados forem contabilizados no futuro.

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